O caminho até a liderança costuma ser mais longo para quem precisa provar competência duas vezes. Quatro profissionais LGBTQIA+ da Bahia mostram, cada um à sua maneira, que é possível chegar ao topo sem abrir mão de quem se é — e explicam o preço que ainda se paga por isso.
Amanda Lemos fundou a Moma Cookie Lab, uma cafeteria em Salvador, sem calcular como deveria se apresentar para parecer mais aceitável ao mercado. Mulher e lésbica, ela construiu um negócio com equipe 100% feminina, composta por dez funcionárias. Para ela, isso é uma escolha consciente e política: acredita que mulheres emancipadas têm responsabilidade de lutar pela emancipação de outras. No setor alimentício, aprendeu na prática que liderança feminina é frequentemente rotulada. “Uma mulher que sabe quem é e onde quer chegar é sempre vista como difícil, grosseira ou com personalidade forte”, afirmou, segundo reportagem do jornal A Tarde.
O chef Cadu Moura, à frente das cozinhas do Grupo Origem em Salvador, viveu uma trajetória diferente do estereótipo das cozinhas profissionais — historicamente rígidas e marcadas por hierarquias duras. Ele conta ter exercido a profissão sem precisar esconder a sexualidade, mas admite que nem sempre foi simples. No início da carreira, piadas e comentários atravessados eram frequentes. A estratégia que encontrou foi transformar boa parte disso em humor. Ao longo dos anos, passou por diferentes fases estéticas e pessoais, mas manteve o que define como essência: “Sou da alegria, das cores, do sorriso. No momento sério, sou sério. No momento da graça, sou da graça”, disse à publicação.
Luna Longo, engenheira de clientes baiana e líder técnica em uma empresa de tecnologia, construiu uma trajetória que começou no jornalismo econômico antes de migrar para a área de tecnologia e inteligência artificial. A transição de gênero aconteceu quando a carreira já estava consolidada. Ela relata que a promoção que recebeu antes da transição funcionou como uma confirmação institucional de competência — o que deu segurança para viver publicamente como mulher trans no ambiente corporativo. Para não perder os vínculos profissionais construídos ao longo dos anos, publicou um comunicado aberto no LinkedIn no primeiro dia em que apareceu transicionada em reuniões. “Muitas pessoas trans perdem contatos porque parece que aquela pessoa antiga simplesmente morreu”, explicou. Mesmo em empresas com programas de diversidade e inclusão, ela afirma que o preconceito continua acontecendo — quase sempre de forma implícita, em silêncios e deslegitimações sutis.
O cenário que Luna descreve tem respaldo em dados. Um levantamento com cerca de 300 empresas revelou que apenas 4,5% dos postos de trabalho formais no país são ocupados por pessoas LGBTQIA+. A situação é ainda mais crítica para pessoas trans, que ocupam somente 0,38% das vagas analisadas. Além disso, 61% dos profissionais LGBT+ brasileiros escondem sua orientação no trabalho.
Rodrigo Almeida, baiano que hoje comanda três empresas de comunicação e atua nacionalmente a partir de São Paulo, descreve um estado constante de alerta que homens gays costumam carregar. “A gente aprende a não errar”, disse ao A Tarde. Gay e casado com outro homem, ele ainda enfrenta o peso do preconceito por ser nordestino — marcadores sociais que se acumulam no ambiente corporativo. Em um episódio marcante, ouviu de uma contratante que sua agência precisava tomar cuidado para não ser “associada demais à diversidade”. Para ele, provar competência exige uma resiliência diária — mesmo dentro do universo da comunicação, frequentemente vendido como moderno e inclusivo.
Uma pesquisa da consultoria global Great Place To Work (GPTW) sobre Diversidade e Inclusão mostrou que apenas 8% das lideranças de empresas são LGBTQIA+. Um relatório do Banco Mundial estima em R$ 94,4 bilhões as perdas anuais sofridas pela economia brasileira em decorrência da exclusão dessa população do mercado de trabalho. O dado reforça que a questão vai além dos direitos individuais — é também uma questão econômica.
Na Bahia, Salvador tem se movimentado para enfrentar o problema. A Prefeitura, por meio da Secretaria da Reparação, instituiu o Selo da Diversidade por meio de decreto, com o objetivo de estimular empresas ao compromisso com a diversidade e a inclusão. Empresas como Braskem, Neoenergia Coelba e Rede Bahia já receberam reconhecimento por implementar políticas inclusivas e criar espaços mais seguros para pessoas LGBTQIA+. São iniciativas importantes, mas as trajetórias de Amanda, Cadu, Luna e Rodrigo mostram que a mudança real ainda passa, antes de tudo, pelas pessoas que decidem ocupar espaço sem pedir licença.




