O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava em Camaçari, na Bahia, nesta quinta-feira (14), quando foi surpreendido por uma pergunta incômoda. Jornalistas queriam saber o que ele achava das mensagens vazadas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso no escândalo do Banco Master. A resposta foi curta e direta: silêncio calculado.
“Eu não vou comentar um caso de polícia. Não sou policial, não sou procurador-geral. O caso dele é de polícia. Tem algum delegado aqui? Não tem. Vá na 1ª Delegacia da Polícia Federal e pergunte como vai ser tratado o caso dele. O meu caso é tratar do povo brasileiro, é tratar da Petrobras e tratar do emprego”, declarou Lula, encerrando o assunto.
Mas o presidente não resistiu completamente ao tema. Durante o discurso em Camaçari, sem mencionar nomes, Lula afirmou que “a verdade tarde, mas não falha” e atribuiu à mãe outra frase: “mentira tem perna curta”. A declaração ocorreu menos de 24 horas após a divulgação de áudios e mensagens em que Flávio Bolsonaro aparece cobrando Vorcaro por pagamentos relacionados à produção de um filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O entorno do presidente havia recomendado ao petista que evitasse entrevistas nesta quinta-feira. Lula cumpria agenda em Camaçari, sem previsão de declarações à imprensa regional durante a viagem. Ainda assim, as perguntas chegaram.
O pano de fundo do episódio é uma reportagem publicada pelo The Intercept Brasil na quarta-feira (13). Segundo o veículo, Flávio Bolsonaro negociou um repasse de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — diretamente com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Os recursos seriam destinados à produção do longa “Dark Horse”, cinebiografia inspirada na trajetória política do pai de Flávio. Documentos mostram que pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025 em seis transferências bancárias.
Uma das conversas teria ocorrido por telefone em 15 de novembro de 2025, um dia antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez na Operação Compliance Zero e dois dias antes da liquidação do Banco Master. O envolvimento de Vorcaro foi negociado diretamente por Flávio Bolsonaro, com outros intermediários, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias, ambos do PL.
O pré-candidato à Presidência confirmou ter pedido dinheiro a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse” e explicou a origem da negociação, reforçando que o projeto tem caráter privado. Flávio negou irregularidades e destacou que não utilizou dinheiro público no financiamento. Segundo o senador, um filho buscou patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai, sem recursos da Lei Rouanet.
A versão de Flávio, porém, encontrou resistência. A GOUP Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, divulgou nota negando que Daniel Vorcaro tenha investido no longa. A empresa afirma que, entre mais de uma dezena de investidores, não há nenhum aporte de Vorcaro ou de suas empresas. A questão sobre o destino real dos R$ 61 milhões permanece sem resposta.
A Polícia Federal vai investigar oficialmente os indícios de que os recursos ligados ao banqueiro possam ter sido usados não para o filme, mas para financiar atividades políticas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A nova linha de investigação ganhou impulso após a divulgação das mensagens e áudios, e após pedidos de apuração feitos por parlamentares.
Em Camaçari, Lula preferiu encerrar o assunto com ironia e seguir na agenda oficial. O presidente sugeriu a senadores aliados da Bahia que propusessem medida legislativa para vetar o uso de inteligência artificial nas eleições. O escândalo Flávio-Vorcaro, no entanto, já estava em todo lugar — menos, ao menos por ora, nos comentários do presidente.



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