| Foto: Reprodução/Redes Sociais | |
A jornalista Beatriz Oliveira, repórter da Globo Minas e ex-repórter da TV Bahia, compartilhou nesta segunda-feira (14) um relato sobre uma experiência de racismo vivenciada pouco tempo depois de se mudar para Belo Horizonte. Em uma publicação nas redes sociais, a jornalista descreveu o episódio como “um soco no estômago” e uma ruptura na percepção que tinha sobre a própria experiência enquanto mulher negra.
De acordo com o relato de Beatriz, publicado pela Rede Seta, durante o período em que viveu na Bahia, o racismo não havia se manifestado diante dela da mesma forma. A mudança de região, porém, fez com que ela se deparasse com uma situação que, segundo seu relato, deixou evidente o impacto da discriminação racial.
“Na Bahia, o racismo nunca me alcançou. Em outra região do país, ele se materializou na minha frente com apenas um mês de moradia. Um soco no estômago. Uma ruptura”, escreveu.
A jornalista afirmou que a situação a fez refletir sobre como a cor da pele pode ser determinante na forma como pessoas negras são percebidas em determinados espaços.
“Para nós, há lugares onde a cor da pele chega antes da nossa história, da nossa formação, da humanidade”, declarou.
Beatriz também contou que reagiu de maneira firme no momento em que percebeu o que estava acontecendo. No entanto, segundo ela, foi ao fechar a porta do apartamento onde havia escolhido morar que veio o impacto emocional.
“Naquele momento, vivi aquilo que tantas vezes li, ouvi e pensei sobre ser uma mulher negra de pele clara. Tenho passabilidades. Mas nunca tive privilégio”, afirmou.
Na publicação, a jornalista também abordou uma das contradições que, segundo ela, podem surgir diante de experiências de racismo: a dúvida sobre a legitimidade de reconhecer determinada situação como violência.
“Talvez seja justamente essa uma das armadilhas mais perversas do racismo: fazer com que a gente, por vezes, questione se tem o direito de chamar de violência aquilo que nos feriu”, escreveu.
‘Não haverá recuo’
Após o episódio, Beatriz revelou ter pensado em deixar a região onde morava e procurar outro lugar da cidade. A decisão, entretanto, ganhou outro significado quando ela recordou a trajetória de sua família.
A jornalista mencionou a mãe, que, segundo seu relato, “limpou tantos chãos” para que ela pudesse alcançar a posição que ocupa atualmente. Também lembrou do pai, que trabalhou com enxadas para “abrir caminhos que não estavam prontos” para a família, além dos avós, que não puderam realizar sonhos porque precisavam sobreviver.
“Então compreendi: recuar não seria apenas mudar de endereço. Seria permitir que a violência de alguém atravessasse uma história que levou gerações para ser construída”, afirmou.
Ao final do texto, Beatriz contou que recebeu de uma pessoa próxima uma mensagem de incentivo que marcou sua decisão de permanecer.
“Um anjo que a vida colocou no meu caminho me disse: ‘Não haverá recuo’. E o eco ressoa: não haverá!”, escreveu.
O relato repercutiu nas redes sociais e trouxe para o debate público temas como racismo, colorismo, pertencimento e as diferentes formas de violência enfrentadas por pessoas negras em diferentes espaços do país.




