Nascida em Maceió no dia 16 de maio de 1899, Almerinda Farias Gama atravessou o século XX como datilógrafa, sindicalista, jornalista, advogada, compositora e feminista — e morreu em 31 de março de 1999, às vésperas de completar cem anos, sem o reconhecimento que sua trajetória merecia. Agora, 127 anos depois do seu nascimento, isso está prestes a mudar: o nome da sufragista alagoana será inscrito no Panteão da Pátria Brasileira, também chamado de Livro de Aço — o espaço reservado a heróis e heroínas que contribuíram de forma decisiva para a história, a identidade e a soberania do Brasil.
A conquista é resultado de uma articulação que começou nas ruas de Maceió. Segundo informações divulgadas pelo portal Cada Minuto, a ativista Arísia Barros, coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas, buscou o mandato do deputado federal Paulão para mobilizar esforços e garantir a inscrição da obra de Almerinda no Panteão. O parlamentar atendeu ao pedido, e a homenagem agora está em vias de se concretizar.
Arísia já vinha há anos travando essa luta. Coordenadora de Igualdade Racial da prefeitura de Maceió, ela iniciou um movimento para reconhecer e divulgar o legado de Almerinda diante da quase total ausência de registros sobre a sufragista na cidade natal e no estado de Alagoas. A ativista havia pedido a parlamentares apoio para a inclusão do nome de Almerinda no livro de Heróis e Heroínas da Pátria — e o pedido, finalmente, encontrou eco.
Quem foi Almerinda Farias Gama? Pioneira na presença de mulheres negras na política brasileira, ela presidiu o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos e foi uma das únicas mulheres a participar do processo de formação da Assembleia Nacional Constituinte, em 1933 — atuando como delegada classista que representava o sindicato que liderava. No ano seguinte, candidatou-se a deputada federal, descrevendo a si mesma em panfletos como “advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação”.
Almerinda também foi um dos principais nomes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), entidade fundada pela sufragista Bertha Lutz que encabeçou a campanha pelo direito das mulheres ao voto no Brasil. De acordo com pesquisas sobre a sua trajetória, ela era “completamente ativa” dentro da federação, assumindo tarefas que incluíam lobby parlamentar, textos para a imprensa e roteiros de programa de rádio. Além disso, segundo pesquisadores, foi a única mulher negra e trabalhadora assalariada entre as lideranças daquela entidade.
O apagamento histórico de sua figura é apontado como resultado do racismo estrutural. Almerinda nunca escreveu sobre si mesma, e tudo o que se sabe dela vem de fontes de pesquisa. A própria data de sua morte só foi descoberta após contato com familiares, pela jornalista e pesquisadora Cibele Tenório, doutoranda em história pela Universidade de Brasília (UnB) e autora do livro Almerinda Gama: a Sufragista Negra.
Compositora de mais de 90 músicas — entre sambas, valsas, baião e coco —, Almerinda também deixou um vasto legado artístico que permaneceu esquecido por décadas. Partituras suas foram encontradas arquivadas na Escola Nacional de Música, da UFRJ. Seu livro de poesias Zumbi, publicado em 1942, é outra prova de uma trajetória de múltiplos talentos.
Com a inscrição no Panteão da Pátria, Almerinda Farias Gama dá um passo definitivo rumo ao reconhecimento que sempre lhe foi negado. A conquista chega como marco simbólico nos 127 anos de seu nascimento — e como resultado concreto da luta de ativistas e parlamentares que se recusaram a deixar essa história no silêncio.




