A morte de aproximadamente 90 cavalos em um haras no município de Atalaia, no interior de Alagoas, deixou de ser apenas um caso sanitário e entrou na esfera criminal. A Polícia Científica do estado confirmou, nesta sexta-feira (14), que o Instituto de Criminalística (IC) de Maceió realizou a coleta de amostras da ração suspeita para análise forense. O objetivo é verificar a presença de substâncias tóxicas que possam ter causado o adoecimento e a morte dos animais.
As perícias foram requisitadas após a instauração de um inquérito policial fundamentado na Nota Técnica nº 19/2025, expedida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo informações divulgadas pelo portal Alagoas 24 Horas, o episódio ocorreu no ano passado e vitimou os equinos com evolução clínica aguda.
O haras em questão é o Criatório Nova Alcateia, um dos mais tradicionais da raça Mangalarga Marchador no Brasil. Em nota, o grupo informou que as mortes ocorreram entre junho e julho e a principal suspeita é que os animais tenham sofrido intoxicação após ingerir ração produzida pela empresa Nutratta Nutrição Animal. Entre os animais mortos estava Quatum de Alcateia, um dos mais valiosos da raça Mangalarga Marchador no Brasil, avaliado em R$ 12 milhões.
A substância identificada previamente como responsável pelas mortes é a monocrotalina, um alcaloide pirrolizidínico. O Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA) analisou amostras e detectou a presença de alcaloides pirrolizidínicos — especialmente a monocrotalina, substância altamente tóxica para equinos, capaz de causar sérios danos neurológicos e hepáticos, mesmo em pequenas quantidades. A origem da contaminação foi identificada como falha no controle da matéria-prima, que continha resíduos de plantas do gênero crotalaria, conhecidas pela geração da substância tóxica.
A perita criminal Jana Kelly, médica-veterinária que coordenou a coleta no local, explicou que o exame laboratorial vai buscar detectar a presença de contaminantes e avaliar a composição e a integridade do produto armazenado. Segundo informações divulgadas pelo portal Alagoas 24 Horas, a coleta seguiu rigorosos protocolos de cadeia de custódia, e todo o material foi encaminhado ao Laboratório de Química para análises específicas. A equipe foi composta ainda pelos peritos Marcelo Velez, Amanda Lemes e Vinicius Rabelo, com apoio do auxiliar André Lira.
A conclusão do laudo depende da chegada de reagentes importados. A chefia do Laboratório Forense ressaltou que se trata de uma demanda atípica tanto em Alagoas quanto no restante do país — o que explica a necessidade de insumos específicos não disponíveis no estoque regular.
O caso em Atalaia não está isolado. Ao menos 245 cavalos morreram após consumirem rações equinas contaminadas da empresa Nutratta Nutrição Animal, com casos registrados em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas. O secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, afirmou que o caso é único: “Nunca, em toda a história do Ministério, havíamos identificado a presença dessa substância em ração para equinos. É a primeira vez que isso acontece.”
Na esfera administrativa, o MAPA instaurou processo administrativo fiscalizatório, lavrou auto de infração e determinou a suspensão cautelar da fabricação e comercialização de rações destinadas, inicialmente, a equídeos, medida que foi posteriormente estendida para rações de todas as espécies animais. Animais que não ingeriram as rações permaneceram saudáveis, mesmo quando alojados nos mesmos ambientes que os demais.
Agora, com o inquérito em andamento e a perícia criminal em curso, a empresa fabricante pode responder também na esfera penal. Os resultados laboratoriais serão determinantes para o fechamento do inquérito e para eventuais ações de responsabilização.




